Nas ruas estreitas, que nasciam onde as avenidas faziam os ângulos mais obscuros, havia pequenos cafés, mal iluminados, com o chão sujo e paredes frias de azulejo até meio, e cartazes velhos pendurados sobre a tinta gasta pelo fumo de anos de tabaco, onde nos podíamos sentar sem que ninguém nos visse,falando das coisas mais secretas desse tempo: política,revolução, literatura. Mas não era disso que falávamos,mas de um assunto muito mais proibido do que esses: o amor, que por então nos obrigava a desvios por lugares onde ninguém nos visse, e percebesse que a revolução não estava nos encontros conspirativos, à luz de polícias e informadores, mas no fundo sórdido daqueles cafés que ninguém frequentava, enquanto o dono, com um tédio de quem sabe que nenhuma vida pode mudar, nos olhava, esperando que não nos fôssemos embora, tirando-lhe a justificação para estar ali, atrás do balcão, enquanto eu hesitava em pegar-te na mão.
Filhos da Época - Poemas Políticos nos 50 anos do 25 de Abril, Nuno Júdice
(organização Rui Lage, edição Assembleia da República)