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Nos últimos tempos, em todo o mundo, no meio do excesso do inútil e da escassez do necessário, das tragédias existenciais e dos dramas sociais, do caos material e das guerras simultâneas e sucessivas, das catástrofes naturais e das perturbações climáticas (maelstroms, tempestades, cheias, sismos, incêndios), das calamidades humanas e dos desastres técnicos (acidentes ferroviários e rodoviários, apagões, pandemias, crises), com os rios caudalosos de noticias e reportagens que geram, ouvimos insistentemente falar de infra-estruturas. É como se, na metafisica, aparecesse, de repente, a fisica, mesmo quando parece invisível,intangivel ou imperceptível a sua presença.
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Pensar hoje as infra-estruturas - o que são, o que subentendem, o que significam e o que representam - é dar à nossa atenção um tema decisivo para compreendermos o ethos e o pathos da nossa época. E para, dela e de nós nela,sondarmos as atitudes e os comportamentos, os programas e os planos, os processos e os procedimentos, os empreendimentos e os riscos, os défices e os superavits, os desperdicios e as poupanças. E também a exactidão dos cálculos e a validade dos prazos, a segurança das previsões e a erosão das resistências,a consistência das sustentabilidades e a solidez das instituições, a dimensão das carências e a justificação das urgências.
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Sem infra-estruturas, o nosso mundo parava, desligava-se (ou desconectava-se), paralisava-se, desconstruía-se. Ou antes: sem infra-estruturas, o tempo a que chamamos nosso privava-se de passado, de presente e de futuro, perdia a forma e o conteúdo, negava-se, desviava-se, desmentia-se, desorientava-se, desmembrava se, anulava-se, deixava de ser o que é, tornava-se um outro, diferente, ou mesmo oposto.
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As Infra-estruturas, Electra 32, Primavera 2026